
Mercado pode virar depois das altas expressivas do leite pago ao produtor em julho
O mercado de pecuária leiteira no Brasil registrou uma valorização expressiva nos pagamentos referentes à captação de julho, impulsionada pela oferta restrita típica do período de entressafra e pela sustentação nos preços dos derivados. No entanto, o setor já começa a desenhar um cenário de acomodação e nova pressão sobre as cotações para o encerramento do ano, com a retomada gradual da produção nacional e o encarecimento dos custos da ração.
Preços em alta na captação de julho
Segundo a analista de inteligência de mercado da StoneX, Juliana Torres, o avanço nas cotações pagas aos produtores em julho surpreendeu positivamente as expectativas. De acordo com os dados do Cepea, a média Brasil atingiu R$ 2,88 por litro, superando o patamar de R$ 2,74 a R$ 2,75 registrado no mês anterior.
A valorização foi sustentada pela combinação de uma oferta ainda ajustada e pela firmeza das cotações no atacado de derivados durante o período, especialmente do leite UHT e do queijo muçarela, que vinham operando em níveis elevados.
Sinais de arrefecimento e resistência no varejo
Apesar do resultado positivo em julho, o comportamento do mercado a partir de agosto e setembro já indica ajustes nos próximos pagamentos. Os derivados lácteos começaram a perder força: a muçarela, que chegou a ser negociada a R$ 36,00 o quilo no Sudeste por quatro meses consecutivos, recuou para a faixa de R$ 35,50 a R$ 35,60. O leite UHT também cedeu de patamares acima de R$ 4,85 para cerca de R$ 4,70 por litro, acompanhado pela queda no mercado spot.
Esse recuo decorre diretamente do repasse de preços ao consumidor final. Com a inflação dos lácteos captada pelo IPCA, a demanda recuou nas pontas, fazendo com que o varejo diminuísse o ritmo de reposição para evitar estoques parados. Apenas o leite em pó integral demonstrou maior estabilidade, girando em torno de R$ 25,00 a R$ 25,20 o quilo, embora continue sob a concorrência direta do produto importado.
Sazonalidade e avanço da safra
Pelo lado da oferta, o movimento segue o padrão sazonal do segundo semestre. As bacias leiteiras da Região Sul do país e de outros estados produtores iniciam a saída da entressafra, favorecidas também pelas chuvas recentes. A expectativa da StoneX é de que a oferta nacional cresça entre 1,5% e 2% em 2026, índice alinhado à média histórica e distante do salto de 8% observado no ciclo 2024/25.
Paralelamente, o volume de importações oriundo de parceiros do Mercosul, como Argentina e Uruguai, permanece em níveis recordes. Embora oscilações no câmbio tenham reduzido pontualmente a paridade de importação no início de setembro, a competitividade externa segue desafiadora para o setor interno. Iniciativas regionais para restringir a reidratação do leite em pó têm alcance limitado, uma vez que a maior parcela do produto importado é destinada diretamente à indústria alimentícia em processos fabris, e não aos laticínios convencionais.
Custos de alimentação exigem gestão rigorosa
Além da perspectiva de estabilização ou recuo nos preços recebidos pelo produtor, a atenção se volta para a elevação nos custos de produção. A recente alta nas cotações dos grãos, sobretudo do milho e do farelo de soja, encarece as rações concentradas e comprime as margens operacionais das fazendas.
Diante desse panorama, especialistas ressaltam que o pecuarista não deve avaliar seu negócio apenas pelo valor bruto pago pelo litro do leite, mas monitorar de forma criteriosa a conta de custos e a margem líquida para manter a sustentabilidade da atividade no restante do ano.
Fonte: Notícias Agrícolas









