
O reconhecimento abrange práticas culturais desenvolvidas em diversos estados, com destaque para Minas Gerais, Goiás e São Paulo. Segundo o Iphan, trata-se de um conjunto de saberes que, por meio da devoção ao Rosário, mantêm vivas as tradições herdadas de povos africanos escravizados. São expressões como moçambiques, congados, catopês, marujos, caboclinhos e tamborzeiros, além da tradicional coroação de reis e rainhas congoleses durante as festividades do Rosário.
A conselheira e relatora do processo, Alessandra Ribeiro Martins, destacou a força simbólica e histórica da manifestação: “É um modo de vida ancestralizado que expressa a resistência cultural e espiritual dos povos negros, que enfrentaram a escravidão no passado e o racismo estrutural nos dias de hoje”.
Reconhecimento fortalece tradição em Rio Paranaíba e região
A região do Alto Paranaíba, tradicionalmente marcada pelas festas de Congado e pelos ternos de Moçambique e Congadas, também é diretamente beneficiada com essa conquista. Municípios como Rio Paranaíba e Carmo do Paranaíba têm forte ligação com essas expressões culturais e religiosas, especialmente por meio dos seus reinados e festejos do Rosário, preservados por gerações.
Em entrevista ao Paranaíba Agora, o historiador Jeremias Brasileiro celebrou o reconhecimento e destacou a longa trajetória até essa conquista. “É uma luta que estamos travando desde 2006. Foram quase 20 anos de persistência, passando por mudanças institucionais e de governo. Mas nunca perdemos a fé em nossos ancestrais”, afirmou. Jeremias ainda relembrou que o pedido de registro saiu de Uberlândia, liderado por ele e Anderson Ferreira, e envolveu outros sete municípios.
Segundo ele, esse é um momento decisivo para o Alto Paranaíba:
“É fundamental que Rio Paranaíba, Carmo do Paranaíba e as cidades do entorno se reorganizem através dos seus detentores, para que possam conversar com os municípios e obter apoio institucional para a realização das nossas festas do Rosário. Agora, como Patrimônio Cultural do Brasil, merecemos esse respeito”.
Reparação histórica e salvaguarda da memória afro-brasileira
O presidente do Iphan, Leandro Grass, destacou que o reconhecimento dos Saberes do Rosário é também um ato de justiça social e reparação histórica:
“O que realizamos hoje foi mais do que um reconhecimento, foi um compromisso com a ancestralidade e com a memória do nosso povo”.
Além do registro, o Iphan se comprometeu a implementar um plano de salvaguardas, com ações de promoção e valorização dessas manifestações em todo o território nacional.
Caminho para o futuro
A expectativa, segundo Jeremias, é que o reconhecimento motive novas ações em prol da cultura tradicional na região:
“Esperamos que Rio Paranaíba possa reencontrar, reorganizar e levantar novamente a Festa do Rosário. A partir de agora, é nosso direito fazer valer a importância da nossa tradição”.
O registro dos Saberes do Rosário é mais do que uma celebração cultural — é a reafirmação da identidade de comunidades que resistem, preservam e celebram suas raízes com fé, ritmo, cor e ancestralidade.






