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Novos aumentos devem chegar à mesa do brasileiro a partir de setembro

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A labuta do produtor Edir Silva começa na madrugada, em plantação de chuchu na Grande BH, de onde o fruto sai para alcançar o varejo com remarcação superior a 63%
(foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press )

Às 4h, Edir Catarino Silva, de 46 anos, já está de pé a caminho do terreno onde, em dias alternados, colhe chuchu e brócolis na Fazenda do Capão, no município de Mário Campos, Região Metropolitana de Belo Horizonte. Com sorte, a produção rende R$ 2,14 por quilo no mercado atacadista do entreposto da Ceasa Minas em Contagem, na Grande BH.

Não foi o caso na última terça-feira, quando a cotação do fruto não passava de R$ 1,40 na pedra, local usado por produtores para negociar com intermediários. Quando chegou ao sacolão, o mesmo chuchu passou a ser ofertado a até R$ 2,99 o quilo e em alguns supermercados a dona de casa pagou R$ 3,49 pelo produto,  mais de 63% acima da remuneração paga ao produtor.

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Das lavouras às prateleiras do varejo, os alimentos sofrem reajustes em cascata, pressão que vem assustando os brasileiros desde o ano passado. O Estado de Minas acompanhou esse trajeto do cultivo, passando pelo atacado, ao destino final nos sacolões e supermercados. A reportagem ouviu produtores e comerciantes sobre  a lida na terra, os custos e valores negociados de ponta a ponta.

Em alguns casos, o consumidor pode pagar o triplo do preço que remunera os produtores no campo, em boa parte trabalhadores contando apenas com o seu suor nos cuidados diários com a plantação e o esforço de suas famílias. Estima-se que os agricultores familiares sejam responsáveis por colocar 70% dos alimentos servidos à mesa no Brasil.

Josinei Faria produz alface e outras folhosas, de domingo a domingo, vencendo as dificuldades do clima e dos gastos com os insumos
(foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press)

Com a disparada da inflação da comida, os efeitos da crise hídrica, insumos mais caros nas plantações e outros fatores que influenciam os preços, como o dólar alto, as previsões para os próximos meses são de que alguns produtos devem encarecer 100% a partir de setembro. Parcela dos aumentos de várias hortaliças e frutas, que encareceram em julho nos entrepostos da Ceasa de todo o país, vão alcançar, agora, o varejo. Houve alta de preços para itens como mamão, banana, uma das frutas mais consumidas no país, e maçã.
Com variações nos sacolões e supermercados de 35,98% e 13,32%, respectivamente, cenoura e tomate foram os itens que mais pressionaram, na Grande BH, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) deste mês, prévia da inflação oficial do país, medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As despesas com alimentação de bebidas subiram, em média, de 0,14% em julho para 0,62% em agosto em BH e entorno, de acordo com o IBGE. A alta foi superior a quatro vezes de um mês para o outro.
O produtor Edir Catarino Silva, de Mário Campos, produz em sistema de meeiro, um contrato de parceria com o proprietário da terra para divisão da produção ou lucros, com outros três produtores, na Fazenda do Capão. Os frutos da colheita são acondicionados em caixotes, levados a um galpão, no qual são submetidos a limpeza, seleção e novamente encaixotados para ser comercializados na Ceasa Minas, em Contagem.

“Os valores variam no dia a dia e fica difícil manter a estabilidade do preço ao cliente”

Eli Pinto Junior, dono de restaurante

Catarino Silva reclama do preço dos insumos, como adubos e fertilizantes, que subiu na esteira da valorização do dólar frente ao real, já que boa parte deles depende da importação. A dificuldade se combina à baixa remuneração do chuchu na lavoura. Na terça-feira, o fruto podia ser encontrado por valores de até R$ 2,99 em sacolões, chegando aos R$3,49 em rede de supermercado de Belo Horizonte.
O brócolis comercializado pelo produtor a R$ 2,08 na Ceasa Minas, por sua vez, era ofertado a R$ 3,99 nos sacolões e a R$ 6,59 na gôndola de supermercado. Altamente sensível às variações do clima, o produto leva em torno de 45 dias entre plantio e colheita e, em geral, dura por volta de 18 horas após ser colhido.
Perdas e ganhos Fundamentais na produção de alimentos, as variações climáticas nem sempre são favoráveis. Também podem exigir mais atenção e cuidados de quem trata a terra, semeia, cultiva e colhe diariamente, legumes, frutas e verduras. Na paisagem seca, característica do inverno, as variadas tonalidades de verde, em retângulos bem-alinhados, chamam a atenção de quem viaja pelas estradas e caminhos rurais dos municípios de Mário Campos, Brumadinho, Sarzedo e Ibirité. São cidades que, entre outros municípios, compõem o cinturão verde da Região Metropolitana de BH, responsável pelo abastecimento, principalmente de verduras, da capital e de seus vizinhos.
Josinei Andrade Faria, de 30, também meeiro em Mário Campos, acorda por volta das 4h, todos os dias, de domingo a domigo. Faça chuva ou sol. Do quarto às hortas, leva 15 minutos no percurso para cultivar alfaces lisa, crespa e americana, além de brócolis, couve, agrião e espinafre.

O produtor diz acompanhar cada oscilação do clima, para que não haja perdas significativas. “No caso do brócolis, a melhor época de plantio é entre os meses de março a junho, final do período chuvoso.” Entre as folhosas, o que mais preocupa o agricultor é o agrião. A verdura precisa ser regada com frequência. E não resiste um dia sem água. “É atenção diária, ela morre se não mantiver a terra úmida. Não tem fim de semana nem feriado.”
Andrade Faria comercializa, em sacolões da Região Metropolitana de BH e na capital, sua produção de dois tipos de alface, lisa e crespa, a R$ 15 a caixa com 36 pés, algo em torno de R$ 0,41 por pé. O preço cobrado ao consumidor em sacolões alcança  R$ 1,99 a unidade e em supermercado atinge R$ 2,69.

Repasse complicado no pequeno comércio

Os ingredientes da salada ficaram mais caros para o comerciante Eli Pinto de Miranda Jr., de 48 anos, dono do Restaurante Cantina de Minas, no Bairro Ipiranga, Região Nordeste de BH. O pé de alface que havia deixado a plantação na Grande Belo Horizonte por R$ 0,41 foi adquirido, segundo ele,  por R$ 3,98. “O mais grave é que os valores variam no dia a dia e fica difícil manter a estabilidade do preço dos pratos servidos ao cliente.”

Além dos efeitos da pandemia de COVID-19 sobre as vendas do comércio e do setor de prestação de serviços, repassar aumentos se torna uma tarefa arriscada para empreendedores de variados segmentos da economia, perante a perda do poder de compra do consumidor. O IPCA-15 avançou de 0,72% em julho para 0,89% neste mês, maior variação medida nos meses de  agosto em 19 anos no Brasil. Os preços dos alimentos tiveram alta de 1,02%, portanto se descolando da média geral. O resultado do índice só não foi pior do que o de agosto de 2002 (1%).

Produtor de cheiro-verde em terreno arrendado no município de Ibirité, na região metropolitana da capital,  José Carlos da Silva, de 68, produz cebolinha, salsa, hortelã, manjericão, alecrim e, algumas vezes, coentro.
A produção, que se estende por todo o ano, é comercializada pelo próprio agricultor em sacolões e supermercados da região de BH. Ele emprega em torno de 15 pessoas, entre a manutenção da horta, os serviços de amarração dos molhos e a embalagem.

José Carlos enumera uma série de dificuldades em continuar produzindo. “O preço do molho de cada uma das especiarias está em torno de R$ 0,40. Com os insumos nas alturas, preço do veneno, do adubo e da mão de obra somados, se apurar na ponta da caneta é pra parar de trabalhar”, reclama. Esses produtos são encontrados em sacolões por valores médios variando de R$ 1,49 a R$ 1,69 nos supermercados.
Além dos insumos, as intempéries geram problemas. Em tempos de seca, a irrigação precisa ser mais frequente. No ano passado, o produtor perdeu toda a sua plantação após chuvas de granizo, em duas ocasiões. As sementes de cebolinha e salsinha, colhidas na própria horta para replantio, precisaram ser compradas. Um quilo de semente da cebolinha foi adquirido por R$ 500, volume que permite produzir 2 mil molhos. Porém, apenas 60% do plantio vingou, disse o produtor.

Valdívia Alves da Silva, de 49, produz de abobrinha italiana em Igarapé. “A abobrinha italiana está na metade do preço, mantém agora 60% do pico, que chegou a R$ 110 caixa de 20 quilos. Hoje (26/08) estou vendendo por R$ 50 (o equivalente a R$ 2,50 o quilo).”
O produto, de acordo com levantamento da Ceasa Minas, apresentou a maior variação de preços entre 1º e 25 deste mês em relação ao mesmo período de 25 dias em julho (44,6%).
Ainda na última quinta-feira, nos sacolões, o preço girava em torno de R$ 6,99 e superava a cotação nos supemercados, de R$ 4,99 por quilo. (EG)
Fonte: Estado de Minas
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Escrito por

Redação Paranaíba Agora

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