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Jeremias Brasileiro: Estamos dançando sobre os ossos dos mortos por COVID-19

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Inevitavelmente vivemos dias excepcionais, e por isso, estrear uma coluna no Paranaíba Agora em contexto de pandemia é por demais significativo. O convite feito pelo jornalista Gilberto Martins muito nos honra e mais ainda quando consideramos que nesse espaço de diálogo democrático, poderemos tecer nossas reflexões e nossas visões de mundo, entre as quais, a mais perturbadora nesse momento, é a vivência em tempos de COVID 19.

O tempo geralmente é o senhor de todas as razões e em um futuro não muito distante, saberemos ou outros saberão como conseguimos criar uma peça teatral de horrores em que os personagens são humanos e que mesmo estando mortos, enterrados, sorrimos sobre seus ossos, dançamos sobre seus ossos, ignoramos a dor de seus parentes próximos e produzimos uma teatralização macabra e impensável, para esse século XXI com tanta tecnologia, com tanta modernidade e com tamanha desumanidade.

Evidente que no Brasil de tantas desigualdades sociais, uns dançam mais do que outros, infelizmente, há aqueles que dançam sobre seus próprios ossos, pois quando acometidos do COVI 19, não possuem uma rede assistencial particular que possa na maioria das vezes contribuir para que não morram.



Por outro lado, os ricos, os poderosos políticos, não somente furam filas de vacinas, antes disso já possuíam possibilidades de tratamento diferenciado por terem posses ou relações de poder. Em decorrência disso, quanto mais a ignorância perpassa pela sociedade inebriada com a ilha da fantasia da imunidade in natura, mais continua a dançar sobre os ossos das centenas de milhares de pessoas sepultadas durante a pandemia.

Sabemos que até o momento não há vacina para todo mundo, cuidar-se ainda é primordial ou continuaremos a contaminar os mais próximos de nós como se fosse algo natural. Não adianta sequer nos sensibilizarmos com as poucas mortes de artistas famosos, políticos de carreira, personalidades sociais de “sucesso”, na realidade, deveríamos chorar pelas pessoas próximas de nós, os humildes, os pobres, os desassistidos, e, não naturalizarmos como sendo destinação divina, a morte dos mais idosos que estão no cotidiano de nossas vidas.

Dançar sobre os ossos de nossos mortos, é perceber o quanto estamos imersos em um bailar macabro de insensatez política, religiosa, cultural e social. A história não julga, mas o tempo com certeza um dia condena e cobra muito caro pelas atitudes insanas dos humanos, pela mortandade anunciada, permitida por grande parte dos poderes políticos. É fato que 2021 não terá carnaval, mas quantos bailes dançantes com a morte teremos Brasil afora? Continuaremos a dançar sobre os ossos dos nossos mortos por COVID 19?



Jeremias Brasileiro, doutor em História Social pela Universidade Federal de Uberlândia, desenvolve pesquisas sobre cultura afro-brasileira e sua diversidade nas Congadas de Minas Gerais, associando-as com o contexto educacional, em uma perspectiva epistemológica de ancestralidade africana. Um intelectual afro-brasileiro reconhecido na obra de Eduardo de Oliveira: Quem é quem na negritude Brasileira (Ministério da Justiça, 1998), que lista biografias de 500 personalidades negras no Brasil; e na obra de Nei Lopes: Dicionário Literário afro-brasileiro (Rio de Janeiro: Editora Pallas, 2011). Escritor, poeta, com textos de dramaturgia, crônicas, literatura afro-brasileira, possui quase 30 livros publicados e é âncora de diversos documentários e curtas-metragens, bem como personagem e participação artística em outros. É também Comandante Geral da Festa da Congada da cidade de Uberlândia, no Triângulo Mineiro, desde o ano de 2005 e presidente da Irmandade do Reinado do Rosário de Rio Paranaíba, Alto Paranaíba, Minas Gerais, desde o ano de 2011.

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