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Cinco médicos são investigados em Minas por abuso sexual: ‘Me senti suja’

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Imagem ilustrativa — Foto: Alexandra Munchen/Pixabay

A ida a um proctologista se tornou mais um trauma na vida de Laura*, de 37 anos. Ela foi até o consultório no bairro de Lourdes, na região Central de Belo Horizonte, sozinha e sem nenhum conhecimento sobre um exame relacionado à citada especialidade. “Com os cotovelos e joelhos em cima da maca, fiquei cinco minutos sendo avaliada. Ele ficava falando que faltava avaliar isso, ou aquilo. Estava sem as calças e me senti muito constrangida”, contou.

Laura* saiu do consultório sem saber se havia sido vítima de um abuso. Dez meses depois, ela conseguiu conversar sobre o assunto com amigas, uma delas médica. “Ela disse que isso (o exame) nunca deveria ter ocorrido. Nesses casos, a pessoa deita em posição fetal e usa uma camisola”, acrescentou. A moça já havia sido abusada quando era mais nova, e a situação a fez reviver momentos terríveis. “Me senti suja, pensei que a culpa era minha”.

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No entanto, ela não denunciou o profissional de saúde. “É um médico bem conceituado, não daria em nada”, disse. Assim como Laura*, a maioria das mulheres que passam por esse tipo de situação não faz a denúncia. A análise é de especialistas ouvidas pelo O TEMPO. Entre 2019 e 2022 sete médicos foram penalizados por abuso sexual pelo Conselho Regional de Medicina CRM (as punições não foram reveladas, elas podem variar desde uma advertência até a perda da licença).

Atualmente, há cinco sindicâncias em apuração no Estado. O número de queixas que chega ao órgão, porém, está aquém da realidade. Além de Laura*, a reportagem escutou outras três pacientes que também nunca relataram os crimes sofridos para a polícia ou para o CRM (veja abaixo).

Muita subnotificação

A coordenadora estadual de promoção dos direitos das mulheres da Defensoria Pública de Minas Gerais, Samantha Vilarinho Mello Alves, avalia que “muitas mulheres não têm coragem de ir à delegacia ou ao CRM”. Para a defensora, a subnotificação tem alguns aspectos. O primeiro tem relação com a falta de conhecimento, já que nem todos os abusos são tão claros como aquele cometido pelo médico anestesista Giovanni Quintella.

“É preciso haver campanhas onde se mostra o que está certo, e o que está errado”, afirma Samantha. Outro motivo dos números não refletirem a realidade tem a ver com a dificuldade ligada ao constrangimento e à sensação de impunidade. “A mulher não quer se expor e, qualquer abuso, é constrangedor”. Além disso, a especialista explica que é a palavra da vítima contra a de um homem, geralmente branco, heteronormativo que já tem o respeito de delegados e juízes. “As mulheres se sentem muito solitárias”, acrescenta.

A delegada Renata Ribeiro, da Divisão Especializada em Atendimento à Mulher, ao Idoso, à Pessoa com Deficiência e Vítima de Intolerância, concorda que há subnotificação em todo crime contra a dignidade sexual, seja importunação, abuso, estupro, entre outros.

“Muitas mulheres se sentem culpadas, mas é preciso entender que nenhuma vítima é culpada do crime cometido contra ela”, reforça. Para a delegada, é preciso apoiar as denúncias e não buscar explicações que justifiquem um comportamento criminoso, como a vestimenta da mulher.

Importância do acompanhante

A defensora Samantha Vilarinho Mello Alves aconselha que a mulher sempre leve acompanhantes para as consultas médicas. Há, inclusive, legislações estadual e federal que garantem o direito a não ficar sozinha em consultas médicas. “Ninguém vai impedir um acompanhante de entrar em uma consulta, mas há mulheres que não tem nenhuma rede de apoio”, analisou.

Câmeras podem ser solução

Em alguns procedimentos, não há como ter o acompanhante por causa da esterilização ou radiação. Nesses casos, a defensora acredita que um caminho possa ser a instalação de câmeras. No entanto, essa questão envolveria um acompanhamento rigoroso para que imagens não fossem vazadas, além de manutenções periódicas, entre outras questões.

Abusos ocultos

Ana* sofreu o abuso durante um exame admissional. “Eu tinha 19 anos, e um médico, mais velho, me fez muitas perguntas constrangedoras. Ele perguntou se eu não queria filho e disse que, se fosse casado comigo, teria meia dúzia de filhos”, contou a jovem, que hoje tem 24 anos. O profissional de saúde ainda perguntou há quanto tempo ela tomava anticoncepcional. “Me senti muito intimidada, mas não denunciei”, finalizou.

Aos 31 anos, Bruna* foi a um clínico geral para diagnosticar dores nos joelhos. Ela levou uma bermuda para realizar a consulta. Mas o médico não deixou que ela se trocasse. “Ele disse que era desnecessário, eu abaixei as calças com muita vergonha, ele examinou, disse que não tinha nada, apertou minha coxa e disse que era coxa de mulher que malhava”, detalhou. Ela não contou para ninguém. “Médico e juízes são intocáveis”, finalizou.

* nome fictício 

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Escrito por

Redação Paranaíba Agora

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